De quase-morte


A primeira coisa que percebi quando acordei foi estar sentada na cadeira mais dura que já sentara durante toda a minha vida. Mas seria aquilo vida? Acho que não, estava morta, certamente. Notei pela luz do lugar, era claro demais, quase branco, e vazio demais: cena típica de filmes. Apesar da claridade, percebi estar em algo como um tribunal, e eu era aparentemente o réu. Esfreguei os olhos umas boas vinte vezes até me acostumar com a luz do lugar e me perguntei o que aconteceria dali em diante. Seria essa minha sentença? Viver ali sozinha por uma eternidade? Alguns minutos se passaram enquanto eu contava mentalmente todas as coisas de ruim que já fizera e poderia ser culpada por.
Foi quando ouvi um barulho alto de portas, pareciam aquelas enormes que se vê só em palácios, e por mais que eu virasse a cabeça por todos os lados, não encontrava porta alguma e nenhum sinal de quem eram os passos que se aproximavam. Me ocupei em roer unhas enquanto esperava minha companhia que tardava a chegar, e como tardava. Acabei pegando no sono e levantei de susto quando os passos ficaram mais altos. Virei o rosto no tempo certo de ver minha mãe caminhando em minha direção. Comecei a falar com ela, perguntar o que acontecia, mas ela simplesmente parecia não me ouvir. Gritei com ela, como se tivesse 16 anos de novo e estivéssemos brigando, mesmo assim, nada. Ela passou lentamente por mim, sem olhar para o lado, sentou-se onde as testemunhas devem sentar e, sem nenhum rodeio ou apresentação, começou a falar. No começo não entendi muito bem sobre o que, mas não tardei a perceber que ela explanava sobre mim, sobre minha vida. E apesar de falar sobre minhas qualidades, eu prestava mais atenção em meus defeitos.
Quer dizer, eu tentei ser uma pessoa boa, não tentei? Sempre fui muito paciente, tinha bons amigos, voltava cedo para casa, fiz uma boa faculdade, consegui um emprego bom. Só não fiz mais coisas como casar e ter filhos por ter aparentemente morrido tão cedo. Tive a vida que a sociedade considera boa, que me fizeram acreditar ser boa, e eu estava completamente satisfeita.
Mas minha mãe não. Ela continuou explanando sobre mim e dava ênfase aos meus problemas, da infância até a adolescência. Lembrou de cada trauma que até caíram lágrimas de meus olhos. Percebi que talvez aquela fosse minha sentença, ter que passar a eternidade ouvindo minha mãe falar sobre meus problemas em minha frente, sem um pingo de pena. Horas pareceram passar e ela continuava falando cada detalhe do início ao fim de minha vida. Até que ela se calou. Minha mãe me deixou sozinha às lágrimas e ao mesmo tempo que voltava do lugar de onde havia vindo, ouvi novos passos se aproximando. Esses novos passos também tardaram a chegar, assim como minha mãe havia feito. Minutos depois pude ver meu pai sentado, pronto para depor contra mim.
E assim passou-se o tempo. Uma a uma, cada pessoa que fez parte da minha vida um segundinho sequer, foi dar seu depoimento. Eles não mentiam, não tentavam me defender ou me acusar. Só contavam fatos, um espelho legítimo da minha vida inteira. E apesar de tudo ser somente a verdade, eu me sentia cada vez pior, via o quanto errara e fora injusta. O tempo parecia passar tão devagar, sem dúvidas passei mais de um ano inteiro ali sentada. E por mais morta que estivesse, meu corpo doía de ficar na mesma posição. Ali percebi não estar completamente morta, mas sim num estado de quase-morte. De vez em quando eu deixava minhas visitas falando sozinhas para poder esticar as pernas por aí. Mas logo voltava, parecia meu dever escutar cada palavra.
Depois de um tempo parei de me sentir mal. Parei de lacrimejar ao ouvir a minha história contada por meus próprios personagens. Só ouvia e lembrava.
Eu estava tão acostumada com as vozes cessando e o intervalo para que a próxima pessoa entrasse para falar que nem notei quando ninguém mais entrou para dar seu depoimento. Acho que passei uns bons dias no silêncio até perceber que ninguém mais entraria. Olhei para todos os lados e minha única companhia era o branco total. Logo ouvi um barulho vindo da bancada logo a minha frente, mas ela era tão alta que só via uma sombra. Eu já não tinha medo, parecia que já tinha vivido tudo o que há de pior nesse mundo.
A última palavra que ouvi nessa minha quase-morte foi "culpada". Tive mais dois segundos para pensar em milhares de coisas. Incrível como a mente pode trabalhar rapidamente de vez em quando. Pensei em quantas coisas deixei de fazer em vida, pensei nos sonhos que deixei para trás e não deveria, mas principalmente, pensei em como aquela voz era familiar. Levei dois milésimos para notar que a voz era a minha própria. Era eu mesma quem me julgava. Eu mesma quem me sentenciava a partir do depoimento de outros. Após esses dois segundos, a claridão me envolveu e a partir daí podia ter certeza absoluta de minha morte.